Mim, Tarzan

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Sou a rima de minhas linhas. O que não sou, elas são. O que não falo, elas falam, e no final, as completo sendo o autor. Sempre costumei falar que todos que gostam de escrever são pessoas oprimidas, são pessoas que sofrem opressão de suas idéias e pensamentos, escrever é uma fuga para tal pesar. Este é então, o local onde não mais serei oprimido. :)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Minhas Histórias Verdadeiramente Alteradas (1)

Começa minha nova série, “Minhas Histórias Verdadeiramente Alteradas”. Modifico momentos pelos os quais passei e acho que podem se tornar uma boa história, com o intuito de não ser processado futuramente por outras pessoas que participam de algumas delas e aproveito para tentar espremer  um lado que nem sempre as histórias reais tem, o humor. A ideia é tirar riso de tudo, poesia de tudo. Mostrar que tudo é história, tudo é vida.

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Vinte e cinco horas menos alguns minutos. Era esse o tempo que eu havia levado para conseguir um punhado de balas. Na verdade não era um punhado, era uma única bala que estava presa dentro da mão do fulano, negava tanto solta-la que me confundo com a quantidade de bala toda vez que vou contar essa história.
Era uma quarta-feira, antes disso havia sido uma terça-feira. Eu sabia que iria beijar uma garota na quarta-feira e como a situação estava um pouco ruim para mim, comecei a procurar uma bala de hortelã um dia antes mesmo. As garotas adoram hálito de hortelã, principalmente a que eu iria beijar na quarta-feira (li isso no caderno dela – era aula de Ed. Física).
Hora do intervalo, corri ao melhor lugar para se descolar algumas balas, a cantina. Tinham exatos dois tazos e 1 centavo no meu bolso direito. Meu bolso esquerdo estava furado, mas eu enfiei a mão do mesmo jeito, como se estivesse procurando alguma coisa, apenas para conseguir um riso de canto de boca quando minha mão tocasse minha coxa sem ninguém perceber. Insisti com a sorte e permaneci na fila, mesmo sabendo que dois tazos e 1 centavo não iriam me comprar nem meia bala (valiam bem mais do que isso, só não valia mais que um beijo, este era o preço que eu estava disposto a pagar). Quando chegou a minha vez, Dona Dinha ou Dona Tia – nunca entendi direito como chamavam ela – olhou pra mim e com um sorriso perguntou o que eu iria querer. Por sorte, sempre prestei muita atenção no que as pessoas falam, gosto de levar as coisas ao pé da letra, notei que ela tinha perguntado o que eu QUERIA, e não o que eu iria COMPRAR. Eu ri por dentro e abusei já pedindo cinco balas de hortelã, nunca se sabe quanto tempo vai levar um beijo mesmo. Ela soltou as balas na minha mão e saí como um herói, eu caminhava rumo à glória, imaginava que a qualquer instante fogos iriam estourar e as pessoas gritariam o meu nome.
- LUCAS! LUCAS! O NOSSO HERÓI! LUCAS! LUCAS! COM ELE, COMPRAR BALA NUNCA MAIS! – ouvia aos berros dentro da minha imaginação.

Eu já tinha dado cinco passos rumo à glória, sem estar com um centavo a menos no bolso quando uma mão de bruxa me para segurando no ombro e começo a me tremer inteiro supondo que a próxima ação dela seria decepar minha cabeça, ou pior, me levaria para a diretoria. Dei quase uma volta inteira com o pescoço para olhar quem estava me segurando, nem eu esperava um pescoço tão talentoso como o meu, pelo rabo do meu olho (não entendo essa expressão) eu vi que era a Doninha, chamavam assim a filha da Dona Dinha (ou Dona Tia), infelizmente, tinha a cuca melhor que a da mãe e era assistente dela na cantina. Para minha surpresa, não decepou minha cabeça e nem me levou a diretoria, apenas disse tranquilamente que eu tinha esquecido de pagar os 50 centavos pelas cinco balas. Sorri monstruosamente por dentro e disse que tinha esquecido mesmo, enfiei a mão no meu bolso esquerdo furado e puxei-o para cima, falando inocentemente a Doninha que minhas moedas deviam ter caído. Ela tirou o sorriso do rosto, fez um barulho estranho com a voz e pegou as balas da minha mão. Não fiquei muito sentido e nem muito bravo com isso, aceitei que afinal de contas era justiça que estava acontecendo. Dei sorte de não ter ficado sem cabeça e nem de ter caminhado pelo corredor da vergonha, corredor estreito e fedorento que cheira a crianças mortas, corredor do mal que leva a sala da diretora. Ninguém nunca a viu pra valer, talvez seja muito feia ou ela petrifique a gente só com o olhar dela, que nem naquelas histórias da medusa.
Faltavam umas parcelas de minutos para o intervalo acabar, decidi procurar em outro lugar tão igualmente óbvio a cantina para se encontrar balas, o resto do colégio. Só que por onde eu passava, era somente papel de bala jogado no chão e ou outros com as bochechas inchadas (com cinco, dez, vinte balas socadas na boca). Festival de balas de hortelã e bom hálito para os afortunados e sortudos que possuíam mais do que dois tazos e 1 centavo no bolso não-furado. Se eu fosse rápido, conseguiria estender os dois minutos finais que eu tinha antes do sinal para cinco minutos. Corri o mais rápido que pude pelo colégio procurando alguém que tivesse cara de “Pessoa Bondosa e Cedente de Bala”, acabei encontrando uma garota com um saco de papel marrom entupido de balas de hortelã causadoras de bom hálito, mas essa era a garota que eu ia beijar na quarta-feira. A razão para eu não ter pedido uma bala a ela ou nem mesmo sequer ter olhado para ela é clara: NÃO SE PEDE UMA BALA PARA A GAROTA QUE VOCÊ VAI BEIJAR NA QUARTA-FEIRA UM DIA ANTES. Simples, sereno, fácil de decorar.
Sinal toca e me recolho para dentro da sala de aula, vencido pelo tempo e dinheiro. Até a hora de ir embora não sobraria nenhuma bala, mesmo se sobrasse, a maioria dos meus amigos vão embora com a perua, os pais vem buscar ou qualquer outro carro bonitão para em frente à porta pra buscar eles. Eu e os outros alunos que vão embora a pé para casa, temos que ir embora assim que o sinal toca, não ficamos 10 ou 20 minutos enrolando que nem os outros.
Pula a parte que eu chego em casa, pula, pula. Chegando em casa até o momento de pisar no colégio de novo, seria impossível arrumar uma bala de hortelã, e amanhã já seria quarta-feira, quarta-feira dia de beijar a garota. Muita tensão, frio na barriga e um hálito não muito bom quanto o de hortelã que eu queria. Antes da primeira aula já fui procurar o fulano, meu melhor amigo (ele não tinha ido no dia anterior, mas eu sabia que na quarta-feira ele estaria e quebraria esse galho pra mim). Assim que o vi, sua feição mudou, pedi uma bala de hortelã sem muita cerimônia, ele sabia porque e por quem eu precisaria dessa bala. Sem dizer nada, estendeu seu braço com a mão fechada e bem apertada a minha frente, abri minha mão embaixo da sua com um sorriso enorme, só esperando ele soltar a tão esperada bala de hortelã em minha mão – o que não aconteceu. Meu sorriso virou uma interrogação enorme, fiquei balançando       minha mão embaixo da mão fechada dele e olhando para seus olhos tentando entender o que ele estava fazendo. Eu estava querendo essa porcaria de bala de hortelã há um dia inteiro, não conseguia entender porque ele estava fazendo isso comigo agora.
- SOLTA ESSA BALA CARA! – berrei ao extremo
De repente a mão dele abre e vejo um papel de bala caindo quase que flutuando até minha mão. A boca dele abre lentamente, mas antes que eu pudesse confirmar se as próximas palavras a saírem dali seriam um pedido de desculpas, sinto um hálito de bala de hortelã e percebo o volume da bala em sua bochecha direita (devo ter falado poucas e boas para ele na minha imaginação, mas seria inválido falar agora). Dou as costas e vou para a aula. Saio da aula, eu já até tinha esquecido da garota que eu ia beijar na quarta-feira, hoje. Cruzei o pátio, desci até a quadra e encontrei ela, beijando o fulano. A garota que eu ia beijar na quarta-feira estava beijando o fulano, meu recente ex-melhor amigo. Estavam se beijando ali na frente de todo mundo e eu podia ver o volume da bala de hortelã esmagada na bochecha dele. Não desviei o olhar e permaneci me torturando naquele troca de saliva nojenta, de repente, o volume some da bochecha do fulano e a garota joga a cabeça para trás, olhos regalados, cara de idiota e braços balançando pra lá e pra cá indicavam um caso de sufocamento legítimo. A Garota estava engasgada com a bala pedindo socorro, parecia uma baleia de braços finos sacudindo o corpo, o fulano se desesperou e para tentar ajudar (eu disse tentar) deu-lhe um soco bem no meio do rosto, fazendo a garota cair no chão com o nariz sangrando e aí com o impacto, cuspindo a bala de hortelã para o alto.
Foi nesse exato momento que quase morri na minha vida, quase morri de tanto rir, eu com meus tantos anos completos não podia imaginar que pudesse existir um ser humano capaz de, por instinto e reflexo, socar a cara de alguém que está engasgando. Dei as costas, ainda rindo muito (por dentro meus órgãos também riam), procurando um sabor novo de bala, pois a partir daquele dia, eu sabia que nunca mais ia chupar uma bala de hortelã, por nenhuma garota.

3 comentários:

Jessica Allana disse...

Primeiro texto seu que eu leio. Ameiiii, ameii mesmoo. Você tirou totalmente minha concentração no trabalho, ainda bem que hoje está bemmmm calmo aqui. Parabéns, Não posso esperar pra ler os próximos :) Beijos

Fernanda disse...

Eu conhecia essa história de um outro jeito hein? HAHAHAHAHAHA
Gostei muito Lu, sempre gostei das coisas que você escreve mas por conhecer essa história percebi que você tem muita criatividade mesmo. A narração, tinha muita cara de menino pentelho, AMEI!
Beijão querido,
saudades

M. disse...

Muito bom... Muito criativo... gostei! :)