Bukowski disse muitas coisas. Muitas coisas melancólicas, muitas coisas confusas e muitas coisas enigmáticas. Mas de todas as coisas que ele disse, a mais sábia e encorajadora, para mim, foi: “Faça, Faça, Faça”.
“Se você vai tentar, vá com tudo. Senão, nem comece. Isso pode significar perder namoradas, esposas, parentes, empregos e talvez a cabeça”.
Que conselho do velho-safado, não? Eu poderia esperar vir de muitas pessoas o poema “Role os Dados”, eu esperaria de muitas, menos de Charles Bukowski, a princípio. Não que isso esteja sendo algum tipo de julgamento, apenas digo que não sonharia em um dia estar esperando para jantar em sua casa, posto a mesa e de repente ele começasse a orar e recitasse isso para mim.
Henry Charles Bukowski Jr, nascido alemão, filho de um soldado americano. Sua vida de escritor demorou muito tempo para acontecer, aos 40 anos ainda sonhava que reconhecessem isso. Sua imagem sempre quase como que caricata – acompanhada de litros de whisky e fumos de cigarro. Não que fosse totalmente mentira ou que fosse uma verdade exagerada. Afinal, quem quer saber? Charles Bukowski foi um mito criador de mitos, foi o melhor em um estilo que ninguém que fosse sóbrio conseguiria ao menos pensar em um título como os que ele criava. (Ao Sul de Lugar Nenhum, Fabulário Geral do Delírio Cotidiano, O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio) E a criatividade não valia apenas para o título de seus livros; as ficções, fatos autobiográficos ou mesmo fatos cotidianos de qualquer um, eram narrados em uma simultaneidade do cômico e da tragédia. Ler seus contos e sentir repulsa e alegria na mesma página é de longe o mais comum.
De hipócrita ninguém nunca ousaria chamar o poeta “Buk”. Ele nunca foi o autor de livros infantis com finais felizes e que vivia escondido por dentro de quarto de hotéis totalmente embriagado. Também nunca foi o autor de livros melancólicos e trágicos repletos de baixaria e palavras de baixo calão e que secretamente vivia a vida de um bom moço. Charles Bukowski foi o autor de livros melancólicos e trágicos repletos de baixaria e palavras de baixo calão e que vivia em privacidade e deliberadamente a vida de um alcoólatra alucinado. De hipócrita ninguém nunca o chamaria por viver declaradamente a vida que o acusavam de viver. Mas este homem cuja vida de bom moço é um pouco duvidosa foi o autor da frase que ouvi em uma mesa de jantar “Vá até o fim. Você cavalgará a vida direto até a gargalhada perfeita”. Sou um admirador de Bukowski e não conheço sua obra inteira e nem sei se um dia vou me encarregar de conhecê-la, mas custei a acreditar que essa frase pertencia mesmo a ele. Pré-julguei-o por conhecer pouco, me arrependo, pois foi estudando mais sua obra, e automaticamente sua vida pessoal, que pude entender o quão falho é ter a audácia de julgar. Suas obras são incríveis, arte pura que mostra apenas a face cicatrizada pelo tempo, mas não o coração, plausivelmente, em feridas ainda abertas.
Estive pensando nessas coisas nessa tarde de segunda-feira, em maio de 2011. Tendo eu, textos e mais textos para terminar, muitas vírgulas para corrigir, e um livro que preciso dar continuidade. Estou muito ansioso para terminar tudo isso, mas não é sempre que a inspiração, criatividade e ânimo vem. Nunca sei como ligá-las, se é um bom banho que as ativa, se as coisas realmente só saem quando devem sair ou se preciso aquecer a cabeça até pegar no tranco para tudo correr livremente. Às vezes acontece como hoje, com alguma coisa para terminar em mente, mas as coisas acabam tomando outro rumo e acabo criando um texto novo totalmente do zero. Não sei se estou me saindo bem ou não, se existe algum mérito ou não para um escritor, senão a própria satisfação, mas todos esses pensamentos me pareciam bastantes propícios enquanto eu brigava com minha própria sombra. Estava com bloqueio criativo desde algum tempo, mas resolvi continuar pensando em algum desfecho para meus trabalhados inacabados até que fui invadido por barulhos e confusões externas. Fiquei frustrado. Comecei a pensar em muitas coisas distintas, uma dessas coisas me fez lembrar o autor Charles Bukowski, sobre sua vida e os julgamentos que recebia injustamente. Comecei a pensar como estamos igualmente sujeitos a esse tipo de julgamento. Como esticar o braço e apontar o dedo é muito mais fácil do que um olhar amoroso que pergunta: “Ei, como você está?”.
Eu me ausento em escrever, mas as idéias nunca deixam de surgir, sempre que possível estou anotando alguma coisa e se existe algum valor em transcrever que haja então enquanto ainda é apenas um pensamento, uma ideia, um sonho. Mas que não seja apontado em direção ao meu rosto um dedo que nunca tocou meu rosto para saber se é de lágrimas ou suor que está molhado, me chamando de vagabundo sem saber.
Crônicas, poemas, músicas, contos, romances, livros e qualquer outro meio que o escritor usa para se expressar são apenas face, nunca coração. Por mais que ele passe uma mensagem, escreva um poema a alguém ou narre perfeitamente uma história que viveu, ali estará somente a linha escrita, nunca sua alma. Por mais que o escritor faça rir, chorar e amar. Sempre pensaremos: “Seria este arrepio o mesmo que ele sentiu?”.

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