Mim, Tarzan

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Sou a rima de minhas linhas. O que não sou, elas são. O que não falo, elas falam, e no final, as completo sendo o autor. Sempre costumei falar que todos que gostam de escrever são pessoas oprimidas, são pessoas que sofrem opressão de suas idéias e pensamentos, escrever é uma fuga para tal pesar. Este é então, o local onde não mais serei oprimido. :)

terça-feira, 13 de abril de 2010

“O que é necessário para nos frear?”

-O Homem da TV seqüestrador de estranhosParte I

  Já passara da meia noite por duas vezes, ele sabia. Apesar de não conseguir enxergar nada com a venda que havia sido posta em seus olhos, Carlos permanecia com os ouvidos atentos a todo som que ele conseguia captar. Ele sabia, por exemplo, que o relógio badalara duas vezes e que, certamente, o seqüestrador possuía uma voz familiar. Essa voz não pertencia a nenhum parente, amigo, vizinho ou colega de trabalho, era uma voz que Carlos podia reconhecer pelas noites em que ficava até tarde assistindo televisão. Alguma sessão de gala com toda certeza. O modo como a voz do seqüestrador tem entrado em sua mente atordoada, o faz lembrar das noites em que lutava contra o sono e permanecia grudado vendo a TV, quando a voz da televisão entrava distorcida e vibrando da mesma maneira engraçada. Uma maneira estranha de reconhecer a voz de um estranho igualmente familiar, uma maneira estranha de reconhecer a voz de um seqüestrador enquanto ele pedia uma pizza grande de anchovas.

  Carlos nunca havia passado por uma situação como essa, por Graça, nunca fora seqüestrado antes. Então, não sabia como deveria se portar, se era hora de entrar em pânico e berrar por socorro, se sacudindo de maneira bizarra pelo chão, de modo que quem o visse de longe, acharia graça, mesmo que não fosse uma risada muito longa e contagiante. Ou mesmo, se era momento para agir de uma forma sensata e perguntar ao seqüestrador porquê ele estaria fazendo aquilo, o que ele queria em troca. Mesmo que para Carlos, agir de uma maneira sensata, correndo atrás de respostas não fosse de seu feitio, não podia ver melhor hora para agir de um modo tão grandemente hipócrita. Apesar de sentir uma tontura que ia além do que a de sua rotina lhe encurralava todos os dias, Carlos não se sentia mal, apavorado ou qualquer outra coisa. Carlos estava sendo o Carlos que sempre fora nos últimos anos, uma pessoa morta por dentro, podre por fora e que nada o fazia se mexer mais do que a sua rotina permitia.
  Ainda com as mãos amarradas, olhos vendados e em uma posição bastante idiota, lá estava ele largado em um colchão fino direto no chão, da mesma forma em que fora jogado pelo Homem da TV, que o atirou alguns metros da porta, deixando Carlos com o traseiro para o alto, que não fez nenhum esforço para tentar sair dali, já por dois dias e mais algumas poucas horas antes da terceira badalada.

[...]

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