Mim, Tarzan

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Sou a rima de minhas linhas. O que não sou, elas são. O que não falo, elas falam, e no final, as completo sendo o autor. Sempre costumei falar que todos que gostam de escrever são pessoas oprimidas, são pessoas que sofrem opressão de suas idéias e pensamentos, escrever é uma fuga para tal pesar. Este é então, o local onde não mais serei oprimido. :)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"- 24/09/10 – Quando minha vida começou a ficar confusa."

- Parte I

   O dia começou de maneira estranha, o sol parecia estar um pouco mais apagado do que de comum. Não que eu acredite nessa história de que o Sol está apagando ou qualquer outra teoria doida para salvar os animais e as geleiras. Mas hoje cedo, quando sai de casa, a luz do sol nem fazia sombra do meu perfil enquanto eu caminhava. Se o chão tivesse sentimentos, hoje ele seria indiferente quanto ao meu andar ausente nele, nem meu sapato importado e nem minha sombra tocavam o solo em direção ao Centro de São Paulo. 

  Talvez o dia não esteja sendo confuso somente para mim, o porteiro deve estar distraído também. Ele demorou a abrir a porta quando eu cheguei à empresa, azar o meu que fiquei esperando – mas sorte do carteiro que vinha atrás de mim, enquanto ainda estava há alguns passos do edifício a porta já foi aberta, passando por mim quase esbarrando, ignorou minha presença. Talvez ele esteja tendo um dia confuso.


 
  Durante seis dias da minha semana eu espero o elevador 3x3 para me levar até o 13º andar, o elevador é a única coisa que não combina com o luxo do edifício. Le Telle foi construído há mais de 50 anos, mas já passou por grandes reformas seis vezes em 10 anos, tempo em que eu comecei a trabalhar. Eu mal vinha trabalhar quando entrei na empresa, a reforma nos dava alguns dias de folga durante a semana. O elevador é o único lugar do prédio que não passou por reforma, somente o espelho e lâmpadas são trocados com uma freqüência de lâmpadas queimadas ou não – espelhos quebrados ou não.
   A espera dessa vez para pegar o elevador foi maior do que a demora rotineira, bati tanto o salto no chão de mármore que acho que vou ter que levar para arrumar depois que eu terminar de escrever. Esperar o elevador sozinha parece ser mais demorado do quando estou acompanhada. Julguei ser a primeira sorte do dia quando vi mais pessoas se aproximando, não os conheço então nem os cumprimentei com bom dia. Estavam rindo e subiam com copos e sacolas do Rei do Mate – tomar o café da manhã em frente ao computador do escritório não é a idéia que eu tenho de refeição ideal para começar o dia – elevador chegou e todos se aprontaram em entrar nele com bastante pressa. Deviam estar preocupados em equilibrar o conteúdo do copo para não virar, pois ninguém escutou quando pedi para apertarem o 13º para mim. Todos desceram no 7º e antes que eu conseguisse apertar o meu botão o elevador começou a descer. Térreo novamente, dei meu primeiro bom dia à Gabriela, também do 13º que entrou esbravejando “Que sexta-feira com mais cara de segunda! Péssimo dia para meu período descer, detesto ter que usar essas calcinhas enormes.” Meio sem jeito, respondi com um “Uau, daqui a pouco passa e a sexta termina, né?” Sei que em momentos como esse apenas uma frase de consolo não iria mudar o dia ruim que ela estava tendo e continuou a soltar seus macacos “Agora me sinto inchada e fico peidando o dia todo, isso está um horror”.
  Fiquei pasma com sua revelação constrangedora e só pude evitar dizer qualquer coisa para não piorar. Não sei que nível de intimidade ela considera entre nós duas, mas ela realmente colocou a prova seu problema, começou a soltar muitos gases, em um elevador isso deveria ser proibido pelas leis da natureza.

  Chegamos ao nosso andar e ela saiu apressada, talvez com vontade de ir ao banheiro, tive que passar com pressa antes que a porta fechasse, ela não abriu quando coloquei minha mão na frente para segura-la. Talvez todos estejam tendo um dia confuso.

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